quarta-feira, 31 de outubro de 2012

...e o tempo vai passando...


"O tempo não pára! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo..."  - Mário Quintana

Já só faltam 16 dias para o fim do meu voluntariado! Depois, mais um mês e é tempo de voltar!E que saudades terei dos meus garotos! Gostamo-nos, confiamos uns nos outros, conhecemo-nos cada vez melhor! A vida pacata do nosso Pronoei satisfaz-nos. Na semana passada tivemos uma reuniao com os pais e a coordenadora, para discutir as diferentes possibilidades de enfrentar um problema premente: uma das professoras, grávida de 9 meses, vai ter de parar de trabalhar por 2 semanas (isso mesmo, leram bem, ela só pode ficar de baixa 2 SEMANAS! E mesmo isso, só se houver substituta, caso contrário é 1 semana.) A coordenadora sugeriu que a outra professora se ocupasse dos garotos da classe dela ou que viesse uma substituta por 2 semanas. Ambas sugestoes foram recusadas pelos pais, que decidiram que os garotos gostam é da voluntária, a tal que eles apelidaram de Florcita! Chamaram-me entao para perguntar se eu estava de acordo em tomar a responsabilidade pelos garotos. Evidentemente que sim, mas fiz lembrar que parto a 16/11 e que infelizmente, no domingo 4 vou a outra província (Espinar) por 4 dias, para liderar um seminário para professores, com vista à divulgaçao de um jogo inventado pelo Director da organizaçao de voluntariado, com o propósito de ensinar as crianças a contar. Os pais pediram entao à professora que se apressasse! Ela fez-lhes a vontade e ontem veio entregar-me as chaves e foi directamente para o hospital. Esta semana nao há problema, amanha é feriado (dia dos vivos) e sexta também (dia dos mortos), mas na próxima semana a outra professora vai ter mesmo (contra a vontade dela) que se ocupar dos garotos até eu voltar da minha viagem.Estamos a estudar os sentidos e tive a oportunidade de usar o burrinho que com tanto amor pintei em Inglaterra e carreguei no meu saco até aqui! Os miúdos adoraram tentar por o rabo no sítio com os olhos vendados, enquanto eu explicava como é difícil nao poder ver!Quem vai sentir saudades minhas quando eu partir é a minha família Peruana! Desde que descobriram que faço boas sobremesas, nao querem nem por nada que eu vá! Hoje fiz mousse de arroz doce - comeram, lamberam a tigela e choraram por mais!Do que eu nao vou sentir saudade é do chuveiro daqui, que ou nao tem água, ou está gelado! Outra particularidade é o facto de a janela nao ter cortina: qualquer pessoa que esteja no jardim pode ver-nos a tomar banho! Resultado, quando está lá alguém tomamos banho de joelhos! 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Ollantaytambo e fim de semana em Cuzco

Fui pela primeira vez a Ollantaytambo com mais 3 voluntários. É uma cidade com muito significado histórico para os Peruanos, o último marco da resistência Inca contra os conquistadores. Foi aqui que Manco Inca se refugiou e fortificou na derradeira tentativa de libertar o país do jugo invasor.
Ollantaytambo fica entre o rio e as montanhas. Foi na encosta destas montanhas que as fortificaçoes foram construídas, tirando aos Espanhóis a vantagem que lhes dava o ataque montados em cavalos. Infelizmente desta vez a visita foi muito curta e nao tive tempo de ir visitar as ruínas, mas fui atá à Ponte Inca. Como já referi, os Incas eram excelentes engenheiros e esta ponte suspensa, que ainda hoje é usada para a travessia de pessoas e automóveis, sobreviveu através dos séculos como testemunho da superioridade deste povo na área da construçao civil.
Fui a Cuzco este fim de semana, com um grupo de voluntários. A maioria ficou num albergue, mas eu e a Signe ficamos no apartamento que a nossa família Peruana tem na cidade. Foi a minha segunda visita a Cuzco e mais uma vez nao tive tempo de ver nada, pois tínhamos compras para fazer e o tempo passou muito rápido. Visitei o mercado El Molino onde se pode comprar tudo muito mais barato. Ingeri toda a proteína que me foi possível, para ter reservas para mais umas semanas! O ceviche estava ótimo! Quanto ao leite de tigre (o líquido em que fazem marinar o peixe e que é servido num copo à parte) nao consegui beber!
Sábado à noite fomos jantar, depois para um bar e finalmente uma discoteca. Confesso que estes miúdos me fazem sentir um pouco do lado de lá da minha idade! Estava a pensar como dizer que estava um pouco cansada nas felizmente a Signe também estava cansada e fomos para casa.
Domingo depois do almoço regressamos a Urubamba. Geralmente tomamos um colectivo mas esses nao têem hora de saída, partem quando estao cheios e teríamos de esperar muito tempo, por isso optamos por um carro particular - as poucas pessoas com carro, normalmente levam passageiros a troco de uma contribuiçao para a gasolina.
Se há algo aqui que me tira do sério é o desrespeito total pelas regras de segurança. Quando fui à festa em Maras, tivemos dificuldade em encontrar transporte para voltar. Finalmente viemos num carro que embora seja para 5 pessoas, trazia 10! Três à frente, 5 atrás e 2 no porta-bagagem! Ontem foi diferente mas mau como de costume! Mal deixamos Cuzco começou a chover, e a chuva foi aumentando de intensidade até se transformar em granizo. Havia relâmpagos e trovoada - as tempestades aqui sao em ponto grande e assustadoras! As janelas iam fechadas, o pára-brisas começou a embaciar e nao se via nada, e o condutor? Ia a 120, conduzindo com uma mao enquanto com a outra limpava o vidro, de vez em quando brincava com a filha que ia à frente com a mae e respondia a chamadas no celular! Ao fim de 20 minutos de stress tive de pedir-lhe que abrandasse ou eu saía do carro e nao pagava!
Uma espécie animal que abunda por aqui sao brecheiros! Brecheiros sao Peruanos que se agarram a "gringas" (estrangeiras) e vivem como parasitas até encontrarem outra ou até ela abrir os olhos e lhes dar um pontapé! Infelizmente deuses Incas ainda nao encontrei nenhum! 

domingo, 7 de outubro de 2012

La Cruz

Hoje subi à La Cruz com a Signe, a minha "irma" Dinamarquesa. Ela vive comigo com a mesma família.
La Cruz é, como é óbvio, uma cruz no topo de uma montanha. De lá tem-se uma vista fantástica de Urubamba e grande parte do Vale Sagrado.
Saímos de casa às 9.15 e caminhamos 1/2 hora até à base da montanha. O dia estava bom para a escalada, o sol encoberto e ao contrário do costume, a temperatura nao estava muito alta. Fizemos uma pausa para beber água e começamos a subir.
O carreiro é típico Inca, sobe a encosta da montanha aos zigzagues, tipo estrada da serra da Leba. Ao princípio, foi fácil: o carreiro era larguinho, nao muito íngreme, o piso firme, a inclinaçao da encosta da montanha, gradual. Progredimos bem e ao fim de uns 10 minutos já tínhamos uma vista bonita do vale. Na montanha em frente avistamos uma capelinha amarela, engraçada, construída pelos Espanhóis - ninguém vai lá.
Vinte minutos depois de começarmos a subir, o piso começou a mudar: pedras soltas, que escorregam debaixo do pé e volta e meia, o carreiro quase desaparecia, pois quando há chuvadas há derrocadas e parte do carreiro abate sob o peso da lama com água que vem lá de cima. Além disso, apesar do sol continuar encoberto, aqui já fazia muito calor. Queria mais água, mas tinha que ter cuidado para que nao se me acabasse antes do fim da caminhada.
Quinze minutos mais tarde começamos a avistar o topo. O carreiro aqui tornou-se mais estreito, mais íngreme e com um precipício que ia do alto da montanha até à base em Urubamba, ao lado. Concentrei-me no piso e com o encorajamento da Signe, chegamos ao topo.
A vista era simplesmente fabulosa! Toda a cidade, o vale até perder de vista, parecia que estávamos no topo do mundo! Tiramos fotos claro, embora a luz nao permita mostrar-vos como o vale realmente é maravilhoso visto lá de cima!
Chegou a hora de descer. Gostaria de poder dizer-vos que realmente conquistei os meus medos e pânicos e me portei como uma autêntica heroína, mas nao posso mentir! Quando comecei a descer o carreiro e à minha frente só via o precipício, congelei apesar do calor! Oh, o pânico que me assaltou! Nao há nada que se compare! Só quem me conhece muito bem e ouviu a historia do carro pendurado pelas rodas de tras na serra da Chela a 2000m de altitude, pode ter uma pequenina ideia do que senti! Tive um momento muito negro! E embora me envergonhe de confessar, desci aquela primeira parte do precipício à "minha maneira", ou seja, sentada! Mas desci!
Passada essa parte mais difícil, o resto foi canja!
Quando cheguei a casa senti-me pela primeira vez, orgulhosa do meu "feito", especialmente quando a minha "mae" Peruana (que só tem mais 4 anos que eu!) me disse: "Subiste à La Cruz? Esse caminho já nao é para a nossa idade!" Pois, mas eu subi! E melhor ainda, tambem desci!

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Coisas e loisas Peruanas

Já cá estou há 2 semanas e em princípio deveria ter mudado de local de trabalho e ir para muito mais longe -  nao estava exactamente a pular de alegria, mas claro que ia. Felizmente os meus garotos e as professoras gostaram tanto de mim que pediram para eu ficar mais tempo. Quinta feira levei fruta e fiz salada com os miúdos - muitos nunca tinham comido!
Há muitos voluntários por aqui - alguns na minha cidade, outros em Calca, Pisac, Cuzco... e muitas nacionalidades também! O contingente mais grosso é de Dinamarqueses, mas também há Alemaes, Franceses, Americanos, Canadianos, Ingleses, Belgas, Australianos, Holandeses....e uma PortAngolana!
Sexta tive folga, as professoras tiveram reuniao e nao houve aulas. Soube bem!
À noite fui com mais 10 voluntários ao jantar de despedida da melhor amiga da moça que vive com a mesma família que eu. Fomos comer uma pizza e depois fomos para um bar onde bebi o meu primeiro pisco sour (por causa dos problemas de altitude, nao é aconselhável ingerir álcohol nas 2 primeiras semanas). Sábado cozinhei para a minha família - frango (ahhh! proteína!) e apple crumble. Gostaram tanto que no domingo cozinharam eles exactamente a mesma ementa! Eu nao pude comer, nao estava bem. Começou com dor de estômago, depois tipo resfriado - pode ter sido da chuvada que apanhei no dia anterior, que me deixou encharcada! À noite tive vontade de comer uma canja, mas como nao havia galinha, foi só caldo de arroz. Tinha planeado ir a Machu Picchu mas ainda bem que nao fui!
Ontem no café Internet aconteceu algo muito estranho que me fez recear que alguém tivesse tomado as minhas contas do Google e do FB. O que eu nao teria dado para falar com alguém que perceba mais de Internet do que eu, mas infelizmente nao havia ninguém! Tenho andado de olho aberto e por enquanto ainda nao vi nada que confirme as minhas suspeitas, mas se receberem emails estranhos vindos do meu endereço por favor avisem-me! 
O Vale Sagrado, onde vivo, tem um panorama maravilhoso, e o clima também nao é mau para esta área! Sinto-me segura, as pessoas sao simples mas gentis e adoram festas. Sexta à noite foi difícil adormecer, com a versao Peruana de "Ai se eu te pego" no máximo nos altifalantes e a tocar repetidamente ad infinitum!
Estou a apaixonar-me por este país. O Perú é pouco propício à agricultura - a faixa costeira é desértica, as montanhas demasiado elevadas e de difícil acesso, o altiplano é puna inhóspita. Só os vales com rios sao cultiváveis. Os Incas aplicaram o seu génio a superar estas dificuldades: construíram terraços nas encostas sustentados por pedras enormes e canais de irrigaçao para utilizar ao máximo a água das fortes chuvas que se abatem sobre os Andes. O maior legado do Perú ao mundo foi a batata. Aqui cresce numa profusao de variedades e cores. Foi calculado que a produçao anual mundial de batata vale muitas vezes mais que todo o tesouro e metais preciosos roubados ao Império Inca pelos conquistadores.
Os Incas foram também excelentes engenheiros - foi graças às incríveis pontes suspensas e estradas construídas por eles que os Espanhóis conseguiram chegar a Cuzco! Talvez tivesse sido melhor que nao as tivessem construído!