quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

La mochilera regresa!

É muito estranho escrever sobre a minha viagem depois de ela ter terminado...muito depois! Mas nunca fui do género de deixar coisas inacabadas e por isso tenho mesmo de actualizar o blog.

Depois de passar um dia em La Paz apanhei de novo o autocarro e voltei a atravessar a fronteira com o Perú. Cheguei a Arequipa às 2.30 da matina. Pela segunda vez nesta viagem desejei ter companhia. Chegar durante a noite a uma cidade que não conhecemos é no mínimo, preocupante! Os únicos passageiros a descer do autocarro fui eu e um outro estrangeiro, o resto seguiu para Lima. A escuridão e o silêncio eram totais. O outro passageiro, um indivíduo de mais ou menos 65 anos de idade, ia ficar num hotel de luxo que tinha enviado um taxi a apanhá-lo. Eu tinha reservado hotel, mas o meu não dava direito a transporte! O tal indivíduo meteu-se no taxi e eu fiquei (imagino) com uma cara tristonha a vê-los partir, quando o taxista me perguntou para onde eu ia e virando-se para o turista insensível e inconsiderado, perguntou se lhe importava que me levassem, já que eu estava só e não tinha maneira de sair dali. O homem lá me deu lugar no banco e eu respirei aliviada!
Arequipa é a segunda cidade do Perú, e é linda! Os Arequipeños sentem-se extremamente orgulhosos da sua cidade e já houve uma tentativa de autonomia, em que chegaram a dar passaportes (Arequipeños, não Peruanos) aos cidadãos. Passeei muito a pé, visitei mosteiros, fui ao miradouro ver o Misti, um vulcão ainda activo, andei pelas ruas e vielas desta cidade que adorei. Só não vi mais porque estive um pouco doente, mas recuperei rápido.

De Arequipa fui de autocarro para Paracas, uma reserva natural onde fiquei 2 dias num hotel muito estranho que me fazia lembrar o hotel do filme de horror Shining. O hotel era lindo, com jardins bem tratados e tinha piscina e tudo, mas os preços eram muito baratos e só quando lá fiquei é que percebi porque. À parte eu e o recepcionista (que servia também de cozinheiro e empregado de mesa), o hotel estava vazio! Eu andava naqueles corredores intermináveis sempre atenta a ver se me aparecia o Jack Nicholson ou REDRUM escrito com sangue nas paredes (quem viu o filme percebe) e a sensação era muito esquisita! À noite trancava-me bem no quarto, não fosse o diabo tecê-las!
Fiz um passeio de barco às ilhas Ballestras, onde vi pinguins, leões marinhos e muitas espécies de pássaros. Estas ilhas foram durante muitos anos, de grande valor para o Perú: o guano que ali havia (ainda há) era exportado para todo o mundo. Adorei o passeio.

Ao terceiro dia abalei para Lima. Finalmente ia conhecer a capital deste país. Confesso que me sentia curiosa, já que a minha família Peruana me tinha dito muitas vezes que Lima é uma cidade linda e totalmente louca, mas que tivesse muito cuidado, pois mesmo para Peruanos é uma cidade muito perigosa. Yurmo, o meu "irmão Peruano", já foi roubado em Lima.
Logo que cheguei dei-me conta que o trânsito era um horror! Os motoristas conduziam, se possível, ainda pior e mais rápido que em Cusco. Lima é realmente uma cidade perigosa, especialmente para os pedestres! Mas é também uma bela cidade, muito interessante. Adorei os mercados artesanais, Miraflores e o parque Kennedy com os pintores expondo os seus quadros, o centro da cidade, com a Plaza de Armas e o bairro chinês onde encontrei "pasteis de nata" que não se pareciam nada com eles, San Isidro e Barranco. Adorei a marginal e o passeio até ao Parque do Amor, no topo das falésias. Andei kms em Lima, é uma cidade enorme! E comi churros!

No dia seguinte fui ao aeroporto buscar uma amiga e nos 5 dias que se seguiram tive companhia.
Voltamos a Paracas, depois fomos ao oásis de Huacachina (onde recusamos pagar para usar o WC e fugimos do atendedor) e finalmente fomos a Nazca. Persuadimos uma à outra a ir nos aviões pequenitos ver as linhas lá de cima. Não gostei muito, eu que nunca enjoei em nenhuma das tempestades marítimas em que já estive (incluindo em barcos à vela), não me senti nada bem naquele aviãozito a balançar de um lado para o outro. Além disso, vi muito pouco e não consegui tirar nem uma foto de jeito!
Em Nazca ficamos num hotel de um tipo muito esquisito, que estamos seguras, nos meteu a unha quando nos vendeu as excursões. O tipo não sabia os nossos nomes e quando precisava chamar-nos gritava: EH! Portugal!!

De Nazca a amiga foi para Cusco e eu voltei a Lima, de onde saíria no dia seguinte para regressar à Europa. Terminara a minha aventura no Perú.


Para fechar o blog, aqui vai o que escrevi sobre a minha experiência.

Quando decidi fazer voluntariado no Peru, sabia que eu não tinha o perfil habitual. As pessoas no meu círculo de amigos pensavam que o voluntariado é para adolescentes, jovens em anos sabáticos e definitivamente não para os de mais de 30, mas com as minhas filhas já adultas e fora de casa (uma a trabalhar em Lisboa, outra na Universidade a viver longe de casa), o bicho carpinteiro começou a tomar conta de mim. Eu queria sentir-me útil e ajudar alguém.
Nunca tive nenhuma dúvida sobre onde eu queria ir - o Peru foi a minha escolha desde o início. Eu estava nessa altura a ler a Conquista dos Incas por John Hemming, e fiquei totalmente fascinada pela história do país e a cultura Inca. Também estava à procura de um desafio e o facto de ficar morta de medo nas estradas de montanha desde que quase morri num acidente aos 10 anos, este país de altitudes extremas representava definitivamente um enorme desafio para mim!
Fiquei contente quando PA me deu a escolher entre quatro opções diferentes de voluntariado. Eu escolhi o PRONOEI (Programa Inicial Não Escolarizado), porque era o mais interessante, mas também porque pensei que talvez não houvessem nuitos voluntários a falar fluentemente o espanhol e eu poderia ser mais útil ali.
Cheguei a Cusco numa tarde de domingo. Esperando por mim no aeroporto com um sorriso amigável estava um membro de Projets Abroad. Ele mostrou-me a cidade e levou-me para Urubamba, no Vale Sagrado, para conhecer a minha família peruana pela primeira vez. Não poderia ter feito melhor escolha se a tivesse feito eu mesma. Jesus, Lupe, Yurmo e Carlos receberam-me de braços abertos e acolhedores e imediatamente se tornaram uma verdadeira família. A cereja no topo do bolo foi a voluntária com quem compartilhei a minha família, uma moça Dinamarquesa pouco mais velha que a minha filha e a melhor companheira que alguém poderia desejar.
No dia seguinte, fui com a minha supervisora Yessica, ao PRONOEI para ver o meu local de trabalho e conhecer Elsa, Roosevelt, -as duas pessoas responsáveis - ​​e as crianças. Durante as oito semanas seguintes eu aprendi a conhecê-los bem e desenvolvi um bom relacionamento com todos, incluindo a maioria dos pais. Ajudei de todas as maneiras que pude, fazendo fotocópias e trazendo muitos materiais necessários fornecidos pelo PA, que eles não podiam obter nem tinham meios de pagar. Também tive que substituir Elsa algumas vezes, pois estava grávida e de vez em quando precisava de tirar folga para ir fazer exames. Quando ela teve o bebé os pais pediram-me que a substituisse por alguns dias até ela voltar. Fiquei muito emocionada quando Elsa deu o meu nome à sua bebé e me disse que teria gostado que eu fosse madrinha da sua filha.
Tive a sorte de ser convidada para participar com Yessica e mais 2 voluntárias num workshop para professores na província de Espinar. Foi uma experiência incrível e achei muito interessante ver como outros PRONOEIs funcionavam.
Quase três meses depois de sair de casa, voltei. Peru foi tudo o que eu esperava e muito mais. Foi uma experiência de mudança de vida. Percebi que ainda posso ser útil e ajudar as pessoas que precisam de mim, que me agradecem não com palavras vazias, sem sentido, mas com sorrisos desdentados e encantadores  nos seus rostinhos de garotos, com abraços e beijos, enquanto me chamam "Florcita". No Peru saí da minha zona de segurança, sobrevivi e vivi realmente! Agora eu sei que sou capaz de muito mais do que eu pensava, tanto física como emocionalmente. E amei esse tempo que foi tão meu, mas que de bom grado compartilhei com estranhos. Adorei o trabalho que fiz, as pessoas que conheci, o país e a cultura tão diferente da minha, mas, ao mesmo tempo, com muitos pontos comuns. Voltei mais em forma físicamente e espiritualmente mais rica no que realmente conta: confiança, experiência, conhecimento e compreensão e estou impaciente para ser de novo voluntária - da próxima vez, talvez em África.
Só resta uma coisa a dizer: obrigada Peru!