quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

La mochilera regresa!

É muito estranho escrever sobre a minha viagem depois de ela ter terminado...muito depois! Mas nunca fui do género de deixar coisas inacabadas e por isso tenho mesmo de actualizar o blog.

Depois de passar um dia em La Paz apanhei de novo o autocarro e voltei a atravessar a fronteira com o Perú. Cheguei a Arequipa às 2.30 da matina. Pela segunda vez nesta viagem desejei ter companhia. Chegar durante a noite a uma cidade que não conhecemos é no mínimo, preocupante! Os únicos passageiros a descer do autocarro fui eu e um outro estrangeiro, o resto seguiu para Lima. A escuridão e o silêncio eram totais. O outro passageiro, um indivíduo de mais ou menos 65 anos de idade, ia ficar num hotel de luxo que tinha enviado um taxi a apanhá-lo. Eu tinha reservado hotel, mas o meu não dava direito a transporte! O tal indivíduo meteu-se no taxi e eu fiquei (imagino) com uma cara tristonha a vê-los partir, quando o taxista me perguntou para onde eu ia e virando-se para o turista insensível e inconsiderado, perguntou se lhe importava que me levassem, já que eu estava só e não tinha maneira de sair dali. O homem lá me deu lugar no banco e eu respirei aliviada!
Arequipa é a segunda cidade do Perú, e é linda! Os Arequipeños sentem-se extremamente orgulhosos da sua cidade e já houve uma tentativa de autonomia, em que chegaram a dar passaportes (Arequipeños, não Peruanos) aos cidadãos. Passeei muito a pé, visitei mosteiros, fui ao miradouro ver o Misti, um vulcão ainda activo, andei pelas ruas e vielas desta cidade que adorei. Só não vi mais porque estive um pouco doente, mas recuperei rápido.

De Arequipa fui de autocarro para Paracas, uma reserva natural onde fiquei 2 dias num hotel muito estranho que me fazia lembrar o hotel do filme de horror Shining. O hotel era lindo, com jardins bem tratados e tinha piscina e tudo, mas os preços eram muito baratos e só quando lá fiquei é que percebi porque. À parte eu e o recepcionista (que servia também de cozinheiro e empregado de mesa), o hotel estava vazio! Eu andava naqueles corredores intermináveis sempre atenta a ver se me aparecia o Jack Nicholson ou REDRUM escrito com sangue nas paredes (quem viu o filme percebe) e a sensação era muito esquisita! À noite trancava-me bem no quarto, não fosse o diabo tecê-las!
Fiz um passeio de barco às ilhas Ballestras, onde vi pinguins, leões marinhos e muitas espécies de pássaros. Estas ilhas foram durante muitos anos, de grande valor para o Perú: o guano que ali havia (ainda há) era exportado para todo o mundo. Adorei o passeio.

Ao terceiro dia abalei para Lima. Finalmente ia conhecer a capital deste país. Confesso que me sentia curiosa, já que a minha família Peruana me tinha dito muitas vezes que Lima é uma cidade linda e totalmente louca, mas que tivesse muito cuidado, pois mesmo para Peruanos é uma cidade muito perigosa. Yurmo, o meu "irmão Peruano", já foi roubado em Lima.
Logo que cheguei dei-me conta que o trânsito era um horror! Os motoristas conduziam, se possível, ainda pior e mais rápido que em Cusco. Lima é realmente uma cidade perigosa, especialmente para os pedestres! Mas é também uma bela cidade, muito interessante. Adorei os mercados artesanais, Miraflores e o parque Kennedy com os pintores expondo os seus quadros, o centro da cidade, com a Plaza de Armas e o bairro chinês onde encontrei "pasteis de nata" que não se pareciam nada com eles, San Isidro e Barranco. Adorei a marginal e o passeio até ao Parque do Amor, no topo das falésias. Andei kms em Lima, é uma cidade enorme! E comi churros!

No dia seguinte fui ao aeroporto buscar uma amiga e nos 5 dias que se seguiram tive companhia.
Voltamos a Paracas, depois fomos ao oásis de Huacachina (onde recusamos pagar para usar o WC e fugimos do atendedor) e finalmente fomos a Nazca. Persuadimos uma à outra a ir nos aviões pequenitos ver as linhas lá de cima. Não gostei muito, eu que nunca enjoei em nenhuma das tempestades marítimas em que já estive (incluindo em barcos à vela), não me senti nada bem naquele aviãozito a balançar de um lado para o outro. Além disso, vi muito pouco e não consegui tirar nem uma foto de jeito!
Em Nazca ficamos num hotel de um tipo muito esquisito, que estamos seguras, nos meteu a unha quando nos vendeu as excursões. O tipo não sabia os nossos nomes e quando precisava chamar-nos gritava: EH! Portugal!!

De Nazca a amiga foi para Cusco e eu voltei a Lima, de onde saíria no dia seguinte para regressar à Europa. Terminara a minha aventura no Perú.


Para fechar o blog, aqui vai o que escrevi sobre a minha experiência.

Quando decidi fazer voluntariado no Peru, sabia que eu não tinha o perfil habitual. As pessoas no meu círculo de amigos pensavam que o voluntariado é para adolescentes, jovens em anos sabáticos e definitivamente não para os de mais de 30, mas com as minhas filhas já adultas e fora de casa (uma a trabalhar em Lisboa, outra na Universidade a viver longe de casa), o bicho carpinteiro começou a tomar conta de mim. Eu queria sentir-me útil e ajudar alguém.
Nunca tive nenhuma dúvida sobre onde eu queria ir - o Peru foi a minha escolha desde o início. Eu estava nessa altura a ler a Conquista dos Incas por John Hemming, e fiquei totalmente fascinada pela história do país e a cultura Inca. Também estava à procura de um desafio e o facto de ficar morta de medo nas estradas de montanha desde que quase morri num acidente aos 10 anos, este país de altitudes extremas representava definitivamente um enorme desafio para mim!
Fiquei contente quando PA me deu a escolher entre quatro opções diferentes de voluntariado. Eu escolhi o PRONOEI (Programa Inicial Não Escolarizado), porque era o mais interessante, mas também porque pensei que talvez não houvessem nuitos voluntários a falar fluentemente o espanhol e eu poderia ser mais útil ali.
Cheguei a Cusco numa tarde de domingo. Esperando por mim no aeroporto com um sorriso amigável estava um membro de Projets Abroad. Ele mostrou-me a cidade e levou-me para Urubamba, no Vale Sagrado, para conhecer a minha família peruana pela primeira vez. Não poderia ter feito melhor escolha se a tivesse feito eu mesma. Jesus, Lupe, Yurmo e Carlos receberam-me de braços abertos e acolhedores e imediatamente se tornaram uma verdadeira família. A cereja no topo do bolo foi a voluntária com quem compartilhei a minha família, uma moça Dinamarquesa pouco mais velha que a minha filha e a melhor companheira que alguém poderia desejar.
No dia seguinte, fui com a minha supervisora Yessica, ao PRONOEI para ver o meu local de trabalho e conhecer Elsa, Roosevelt, -as duas pessoas responsáveis - ​​e as crianças. Durante as oito semanas seguintes eu aprendi a conhecê-los bem e desenvolvi um bom relacionamento com todos, incluindo a maioria dos pais. Ajudei de todas as maneiras que pude, fazendo fotocópias e trazendo muitos materiais necessários fornecidos pelo PA, que eles não podiam obter nem tinham meios de pagar. Também tive que substituir Elsa algumas vezes, pois estava grávida e de vez em quando precisava de tirar folga para ir fazer exames. Quando ela teve o bebé os pais pediram-me que a substituisse por alguns dias até ela voltar. Fiquei muito emocionada quando Elsa deu o meu nome à sua bebé e me disse que teria gostado que eu fosse madrinha da sua filha.
Tive a sorte de ser convidada para participar com Yessica e mais 2 voluntárias num workshop para professores na província de Espinar. Foi uma experiência incrível e achei muito interessante ver como outros PRONOEIs funcionavam.
Quase três meses depois de sair de casa, voltei. Peru foi tudo o que eu esperava e muito mais. Foi uma experiência de mudança de vida. Percebi que ainda posso ser útil e ajudar as pessoas que precisam de mim, que me agradecem não com palavras vazias, sem sentido, mas com sorrisos desdentados e encantadores  nos seus rostinhos de garotos, com abraços e beijos, enquanto me chamam "Florcita". No Peru saí da minha zona de segurança, sobrevivi e vivi realmente! Agora eu sei que sou capaz de muito mais do que eu pensava, tanto física como emocionalmente. E amei esse tempo que foi tão meu, mas que de bom grado compartilhei com estranhos. Adorei o trabalho que fiz, as pessoas que conheci, o país e a cultura tão diferente da minha, mas, ao mesmo tempo, com muitos pontos comuns. Voltei mais em forma físicamente e espiritualmente mais rica no que realmente conta: confiança, experiência, conhecimento e compreensão e estou impaciente para ser de novo voluntária - da próxima vez, talvez em África.
Só resta uma coisa a dizer: obrigada Peru!

domingo, 2 de dezembro de 2012

Por aqui...por ali..na pura vadiagem!

Desde que deixei Urubamba e comecei a viajar tem sido muito mais difícil actualizar o meu blog de viagem! O tempo mal dá para colocar as fotos no FB. Tentei escrever o blog na minha Galaxy tab mas leva-me tanto tempo que acabo sempre por desistir.

Deixei Urubamba Sábado 17, apos o almoço, que cozinhei e de uma despedida bastante emocional da minha família Peruana e depois de uma noite em Cusco, em que fui a um jantar de despedida com os meus colegas voluntários e principalmente com a minha companheira de casa, Signe, de quem sinto muita saudade, parti rumo a Puno.
Fiz questao de ir num autocarro que para para visitas em certos lugares. Assim, visitei a igreja de Andahuaylillas, as ruínas de Raqchi, La Raya, o ponto mais alto da montanha nessa viagem (4300m) e Pukara.
Puno é uma cidade bonitinha, na margem do Lago Titicaca, o lago navegável mais alto do mundo. A principal atracçao sao as ilhas Uros, Taquile e Amantani.
As Uros sao ilhas artificiais, feitas com palha flutuante - a base sao blocos de terra com raízes de juncos, que sao "ancorados" ao fundo do lago e por cima vao colocando a palha, camadas sobre camadas. Conforme a palha vai apodrecendo, vai sendo substituida por nova. Assim, acontece-nos às vezes, que o pé se afunde numa parte que está podre. Os habitantes vivem uma vida simples, baseada principalmente no turismo, artesanato e pesca.
Depois dos Uros fui a Taquile. Esta é uma ilha natural, com solo vermelho escuro, que contrasta com o azul do lago. Tem imensos arcos de pedra, e os habitantes vivem na parte alta da ilha, temos de subir 500 degraus para chegar à vila. Adorei esta ilha, bastante fotogénica, mas infelizmente havia algo na lente da minha máquina e eu, pitosga como sou, nao vi, o que tornou as fotos inaproveitáveis. Decidi nao ir a Amantani pois é mais longe, tem de se dormir lá uma noite, uma boa experiência para viver com o povo local. Eu, que já tinha vivido com uma família Peruana, senti que nao precisava.
De Puno segui para Copacabana - nao, nao é a do Rio, é a da Bolívia e nao tem nada a ver. Também fica na margem do lago e a principal atracçao também sao as ilhas; Isla del Sol e Isla de la Luna.
Como já todos leram, a minha estadia aqui nao foi um êxito. Comprei bilhete para ir à Isla del Sol e garantiram-me que teria tempo de ver o templo e as escadarias Incas, mas chegados lá, disseram-nos que tínhamos de estar no barco em 15 minutos - esta ilha também tem muitas escadas e o tempo nao dava para sair da praia. No dia seguinte, o Recenseamento Boliviano obrigou a cidade (e o país) a uma paralizaçao completa! Durante 24 horas, nao houve transportes, os restaurantes e cafés nao abriram e nao se podia sair do hotel - os poucos que tentaram foram ràpidamente recambiados de volta pela polícia, com ameaças de multas avultadas e prisao!
Escusado será dizer que no dia seguinte, parti de Copacabana no primeiro autocarro para La Paz, que nao era um turístico (esses só saem à tarde), mas sim local.
A viagem decorreu tranquila, através de um cenário lindo,até ao momento em que estourou um pneu. Nao percebi bem porque, mas a troca do pneu demorou quase 1 hora.
La Paz, a capital mais alta do mundo, é uma cidade impressionante: encarrapitada nas montanhas que a rodeiam, faz lembrar um pouco o Funchal, mas muito maior, muito mais alta, e com a maioria dos edifícios inacabados mas habitados, como é costume aqui no Perú também. Muito barulhenta, bastante suja, mas cheia de vida. Só fiquei uma tarde, pois queria ir visitar o deserto de sal de Uyuni e descobri que o comboio de Oruro para Uyuni era no dia seguinte à tarde, e se perdesse esse, teria de esperar até domingo. Assim, sexta de manha, apanhei o autocarro para Oruro. A viagem de comboio correu bem e cheguei a Uyuni às 10.30 da noite. No dia seguinte fui reservar o meu tour de 3 dias ao deserto de sal, lagoas, vulcoes e geysers. Escolhi com cuidado a agência, mas nao me serviu de nada, pois descobri mais tarde que as agências trocam turistas entre si. Domingo de manha esperei que me viessem buscar e travei conhecimento com um Espanhol, Javier, que também estava à espera, mas que ia com outra agência (isso pensavamos nós). Finalmente, quando o jeep apareceu, o nosso grupo era constituído por turistas em que só um deles tinha reservado com a companhia que nos levou. Apesar de tudo, o grupo era muito simpático: 1 Angolana/Portuguesa, 1 Espanhol, 2 Suecos, 1 Canadiano e 2 Peruanos - e claro, o guia.
O deserto de sal é impressionante: tudo branco, até onde a vista alcança! E a capa de sal tem uma profundidade de 8 metros. Na estaçao das chuvas tiram-se fotos maravilhosas: a superfície cobre-se de água e torna-se um autêntico espelho, onde tudo se reflecte. No entanto, quando chove muito, o acesso ao deserto fica interdito pois há muitos acidentes! Visitamos o cemitério de trens e a isla del pescado - que nao é ilha nenhuma nem tem peixes! Tem imensos cactos, um deles com 900 anos de idade! Nessa primeira noite ficamos num hotel de sal - tudo feito com sal: as paredes, a base das camas, as mesas, os bancos... Ficamos num dormitorio comum, o que nao esperavamos, visto que nos tinham dito que a primeira noite seria confortavel, em quartos privados, so a segunda e que seria acomodaçao extremamente basica. O grande problema, para mim, foi o WC. Os Bolivianos teem uma obsessao contra fechaduras de todo o tipo. Para grande consternaçao minha, descobri que nao podia fechar a porta. A grande maioria dos vagabundos como eu viaja acompanhado, eles nao tinham problemas, um ficava de guarda enquanto o outro ia à casa de banho. Eu felizmente pratiquei yoga, o que me permitiu segurar a porta com uma mao (ou um pe) bem esticado, enquanto me balançava em equilibrio para acertar na objectiva! Experiencia que nao aconselho a ninguem!
No segundo dia visitamos muitas lagoas e um vulcao ainda activo. As lagoas todas muito bonitas, com cores estranhas, ou das algas ou dos elementos quimicos nelas existentes. Nessa noite dormimos na tal acomodaçao mesmo basica. E era! Nao so dormitorios comuns mas tambem chuveiros comuns! Pensei em evitar o tal chuveiro (com cortina de plastico transparente), mas os caminhos por onde tinhamos andado eram tao poeirentos e sentia-me tao suja, que fui, com alguns do meu grupo, tomar um duche (outros acobardaram-se!) O banho era suposto ser quente, (havia uma senhora a aquecer agua e a dar a bomba) mas ou fervia ou congelava! Nao havia maneira de carregar baterias, e a minha maquina estava a morrer, felizmente o Javier deixou-me carregar no computador dele - gracias Javier! No terceiro dia, acordamos as 4.30. Faziam 10 graus negativos quando chegamos aos geysers, a 5000m de altitude. Para descongelarmos, levaram-nos a umas termas. Depois continuamos ate à fronteira com o Chile, onde deixamos alguns do grupo - Javier, Peter e Ita e finalmente chegamos a Uyuni, às 5 da tarde, muito cansados - as estradas sao mas e dao cabo dos rins! Nessa mesma noite apanhei o autocarro de volta a La Paz onde cheguei de manha.
Tinha pensado em actualizar ate Arequipa mas este conto ja esta comprido demais e nao quero aborrecer ninguem! Continua...

domingo, 18 de novembro de 2012

Espinar


Segunda feira, 5 Novembro às 7 da manha, parti para Espinar acompanhada de mais 2 voluntárias, Martina (Francesa) e Mariska (Holandesa-Brasileira) e da nossa supervisora de Projects Abroad, Yessika. Como fomos convidados pelo Municipio de Espinar para fazer este seminário, enviaram um carro para nos vir buscar. O carro já vinha com 2 pessoas, por isso tivemos de enlatar-nos atrás, resignadas a viajar com muito pouco conforto por 4 horas.
Espinar é uma província ao sul de Cusco. E supostamente rica, ou seja, o municipio é rico, graças às minas de cobre existentes na área, mas o povo nem por isso. Vi a mesma miséria que vi em cusco.
Ficamos alojadas pelo município na casa para mulheres abandonadas e maltratadas, um edificio novo e moderno, que, ao contrário da maioria dos edificios novos, parecia acabado. Pura ilusao, demo-nos conta mais tarde!
Na primeira manha fomos ver a Ludoteca, que fica no edificio. É um espaço bonito, bem arranjado, com muita luz, cor, música e imensos brinquedos e recursos para o desenvolvimento das criancas. Gostamos muito! Só havia 2 crianças nessa manha e brincamos com elas.
À tarde começamos o seminário para professores. O grupo era grande e foi uma grande vantagem sermos 4! Uma explicava os jogos para aprender a contar e depois as outras jogavam-nos com um grupo para termos a certeza que tinham percebido. Uma das voluntárias nao fala bem espanhol, por isso ela só via o que eles faziam e se fosse preciso explicar chamava uma de nós. Ao fim dessa primeira tarde choveu torrencialmente. Foi entao que nos demos conta que o tal edificio que parecia acabado nao era estanque! Entrava água por todos os lados e a sala onde estávamos depressa ficou inundada. Fomos para o quarto e as 7, quando a chuva abrandou fomos comer. Todas as refeiçoes excepto a de terça à noite, em que fomos a uma pizzaria, foram num restaurante local. A comida nao era má, mas tao pouco era variada. Sempre a mesma sopa e o mesmo prato...incluindo o pequeno almoco! Felizmente conseguimos mudar o cardápio para ovos ao matabicho. 
Quando voltamos do restaurante, demo-nos conta que nao podiamos entrar. O guarda havia fechado o portao a cadeado e tinha ido dormir. Depois de muito bater e abanar o portao de ferro, finalmente conseguimos acorda-lo! Nessa noite, e na que se seguiu, nao conseguimos dormir. As janelas nao tinham cortinas e por causa da segurança, as luzes ficam acesas toda a noite: luzes fluorescentes e amarelas a brilhar nos nossos olhos entrando pela janela da frente e de trás. De manha, verificamos que apesar das casas de banho terem esquentadores, estes nao funcionavam, duche gelado tivemos de tomar! E aqui ainda era mais gelado, Espinar fica a 4000m de altitude! Os dias sao ainda mais quentes que em Cusco e as noites ainda mais frias!
Nessa manha visitamos 2 Pronoeis, em zonas bastante pobres. Ficamos impressionadas com o nivel e qualidade do ensino, considerando a falta de meios; nem lapis de cor tinham! No primeiro Pronoei fizemos actividades com argila, o que nao foi facil, já que ficamos todas besuntadas de barro e nao tinhamos água para nos lavarmos! Mas os garotos adoraram e isso é que é importante e até produziram algumas obras primas! No segundo, trabalhamos com massa de sal (a imitar plasticina) e tambem foi um sucesso, com a vantagem de ser mais limpo!
À 1 hora a francesa foi-se embora, pois voltava para França no dia seguinte. À tarde continuamos o seminário e estavamos todos tao entretidos que acabamos 1 hora mais tarde do que o harario previa.
No terceiro dia visitamos um Pronoei mais distante. Fizemos máscaras com pratos de papel e pintura com cola, sal e anilina em pó. Os garotos adoraram todas as actividades. No fim, contei-lhes a minha versao de uma história Inglesa muito popular, a lagarta esfomeada (thanks G!) - foi um sucesso!
A tarde também correu bem, mas voltar para Urubamba foi um pesadelo! Ou havia carro, ou afinal nao havia carro...enfim, acabamos por voltar em transporte público. Chegamos a Cusco estoiradas, à meia-noite, já nao havia carro para irmos para casa, dormimos lá e acordamos às 5 da matina para apanhar o autocarro para Urubamba, pois tínhamos de ir trabalhar!
Resumindo, o trabalho com as crianças e o seminário com os professores foram um sucesso, mas a logística foi péssima! Uma experiência que nao vou esquecer tao cedo! 

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Machu Picchu


Ao fim de quase 2 meses da minha estadia no Perú, visitei finalmente MP! Vontade nao me faltava, e curiosidade também nao, mas fui adiando, adiando...Vou tentar descrever aqui a minha visita, mas nao há palavras nem fotos que possam verdadeiramente dar-vos uma ideia da magnificência deste lugar!

Saí de Urubamba na sexta 2 Novembro e apanhei o colectivo para Ollanta. A estaçao fica um pouco fora da cidade, mas é bonitinha e tem um bom café onde esperei pelo combóio. É lindo, azul com letras amarelas PERU RAIL. A viagem em si é fascinante - passamos entre as montanhas, à beira rio e é interessante verificar a mudança da vegetaçao, de escassa como é comum na altitude, a luxuriante (cloud forest = floresta nublada, floresta de nevoeiro ou floresta de altitude).
Depois de 1 hora e meia chegamos a Águas Calientes, também conhecida por MP Pueblo. O nome de Águas Calientes deriva, como devem imaginar, de uns banhos termais que existem na cidade. A particularidade desta cidade é o facto de nao haver carros a circular, isto porque nao há estrada até lá. É uma cidade completamente isolada. O único trânsito é o dos mini autocarros, que foram levados até lá de combóio e que transportam os turistas para e de MP. Esta cidade é como um cartao postal, mas infelizmente, por ser muito turística, é muito cara, uma garrafa de água custa 4 vezes mais que em Urubamba, e no café à entrada de MP é 8 vezes mais cara!
Sábado 3 Novembro acordei as 3.45. As 4.30 estava a caminho do portao de entrada para pedestres, que dista cerca de 1km da cidade. Quando lá cheguei, o portao ainda estava fechado, mas já havia bicha para entrar. O portao abre mais cedo do que a ponte para os autocarros, para dar a oportunidade aos que sobem pelas escadas de chegar lá acima mais ou menos ao mesmo tempo que os preguiçosos que sobem de carro. Ainda estava um pouco escuro quando comecei a subir, mas aqui amanhece rápidamente. Sao quase 2000 degraus, e a altitude torna o exercício muito mais difícil. Mentiria se dissesse que foi fácil; nao foi, nem para mim nem para os outros, muito mais novos que eu, que encontrei no caminho. Houve muitas paragens para retomar o fôlego, mas cheguei lá acima!
A primeira vista que tive do local tirou-me o pouco fôlego que me restava: as ruinas, com o Huayna Picchu atrás envolvido em nuvens! É um local absolutamente fascinante e misterioso também, e as nuvens e a chuva que caía ajudavam a criar o ambiente. Choveu quase toda a manha, embora com algumas abertas, e por esse motivo, as fotos estao salpicadas de ponchos plásticos coloridos. Subi escadas, desci escadas, muita escada há neste local! Vi tudo o que havia para ver. O Templo do Sol, usado para astronomia com 2 janelas alinhadas com os pontos onde o sol nasce nos solstícios de verao e inverno, a Praça Sagrada, o Templo das 3 janelas, o Templo do Condor, a casa do guarda, a casa do Inca, as llamas e os terraços para agricultura. Nao subi a Huayna Picchu porque sofro de vertigens e nao é aconselhável a pessoas como eu, a picada tem precipícios e nada onde nos agarrarmos, e desta vez nem sentar-me no chao ajudaria!
A tarde, depois de carimbar o meu passaporte, voltei a Águas Calientes - desta vez de autocarro, pois as pernas estavam um pouco bambas de tanta escadaria! Mas a viagem de autocarro também causou um pouco de stress, pois a estrada é estreita, para um carro só e quando 2 têem de cruzar, ficam quase com as rodas fora da estrada!
Em Águas Calientes vi o meu primeiro beija flor desde que cheguei ao Perú: era lindo e colorido, mas tinha bicho carpinteiro e foi muito dificil fotografá-lo!
As 6 da tarde apanhei o comboio de volta para Ollanta, cansada mas feliz e maravilhada pelo que tinha visto.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

...e o tempo vai passando...


"O tempo não pára! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo..."  - Mário Quintana

Já só faltam 16 dias para o fim do meu voluntariado! Depois, mais um mês e é tempo de voltar!E que saudades terei dos meus garotos! Gostamo-nos, confiamos uns nos outros, conhecemo-nos cada vez melhor! A vida pacata do nosso Pronoei satisfaz-nos. Na semana passada tivemos uma reuniao com os pais e a coordenadora, para discutir as diferentes possibilidades de enfrentar um problema premente: uma das professoras, grávida de 9 meses, vai ter de parar de trabalhar por 2 semanas (isso mesmo, leram bem, ela só pode ficar de baixa 2 SEMANAS! E mesmo isso, só se houver substituta, caso contrário é 1 semana.) A coordenadora sugeriu que a outra professora se ocupasse dos garotos da classe dela ou que viesse uma substituta por 2 semanas. Ambas sugestoes foram recusadas pelos pais, que decidiram que os garotos gostam é da voluntária, a tal que eles apelidaram de Florcita! Chamaram-me entao para perguntar se eu estava de acordo em tomar a responsabilidade pelos garotos. Evidentemente que sim, mas fiz lembrar que parto a 16/11 e que infelizmente, no domingo 4 vou a outra província (Espinar) por 4 dias, para liderar um seminário para professores, com vista à divulgaçao de um jogo inventado pelo Director da organizaçao de voluntariado, com o propósito de ensinar as crianças a contar. Os pais pediram entao à professora que se apressasse! Ela fez-lhes a vontade e ontem veio entregar-me as chaves e foi directamente para o hospital. Esta semana nao há problema, amanha é feriado (dia dos vivos) e sexta também (dia dos mortos), mas na próxima semana a outra professora vai ter mesmo (contra a vontade dela) que se ocupar dos garotos até eu voltar da minha viagem.Estamos a estudar os sentidos e tive a oportunidade de usar o burrinho que com tanto amor pintei em Inglaterra e carreguei no meu saco até aqui! Os miúdos adoraram tentar por o rabo no sítio com os olhos vendados, enquanto eu explicava como é difícil nao poder ver!Quem vai sentir saudades minhas quando eu partir é a minha família Peruana! Desde que descobriram que faço boas sobremesas, nao querem nem por nada que eu vá! Hoje fiz mousse de arroz doce - comeram, lamberam a tigela e choraram por mais!Do que eu nao vou sentir saudade é do chuveiro daqui, que ou nao tem água, ou está gelado! Outra particularidade é o facto de a janela nao ter cortina: qualquer pessoa que esteja no jardim pode ver-nos a tomar banho! Resultado, quando está lá alguém tomamos banho de joelhos! 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Ollantaytambo e fim de semana em Cuzco

Fui pela primeira vez a Ollantaytambo com mais 3 voluntários. É uma cidade com muito significado histórico para os Peruanos, o último marco da resistência Inca contra os conquistadores. Foi aqui que Manco Inca se refugiou e fortificou na derradeira tentativa de libertar o país do jugo invasor.
Ollantaytambo fica entre o rio e as montanhas. Foi na encosta destas montanhas que as fortificaçoes foram construídas, tirando aos Espanhóis a vantagem que lhes dava o ataque montados em cavalos. Infelizmente desta vez a visita foi muito curta e nao tive tempo de ir visitar as ruínas, mas fui atá à Ponte Inca. Como já referi, os Incas eram excelentes engenheiros e esta ponte suspensa, que ainda hoje é usada para a travessia de pessoas e automóveis, sobreviveu através dos séculos como testemunho da superioridade deste povo na área da construçao civil.
Fui a Cuzco este fim de semana, com um grupo de voluntários. A maioria ficou num albergue, mas eu e a Signe ficamos no apartamento que a nossa família Peruana tem na cidade. Foi a minha segunda visita a Cuzco e mais uma vez nao tive tempo de ver nada, pois tínhamos compras para fazer e o tempo passou muito rápido. Visitei o mercado El Molino onde se pode comprar tudo muito mais barato. Ingeri toda a proteína que me foi possível, para ter reservas para mais umas semanas! O ceviche estava ótimo! Quanto ao leite de tigre (o líquido em que fazem marinar o peixe e que é servido num copo à parte) nao consegui beber!
Sábado à noite fomos jantar, depois para um bar e finalmente uma discoteca. Confesso que estes miúdos me fazem sentir um pouco do lado de lá da minha idade! Estava a pensar como dizer que estava um pouco cansada nas felizmente a Signe também estava cansada e fomos para casa.
Domingo depois do almoço regressamos a Urubamba. Geralmente tomamos um colectivo mas esses nao têem hora de saída, partem quando estao cheios e teríamos de esperar muito tempo, por isso optamos por um carro particular - as poucas pessoas com carro, normalmente levam passageiros a troco de uma contribuiçao para a gasolina.
Se há algo aqui que me tira do sério é o desrespeito total pelas regras de segurança. Quando fui à festa em Maras, tivemos dificuldade em encontrar transporte para voltar. Finalmente viemos num carro que embora seja para 5 pessoas, trazia 10! Três à frente, 5 atrás e 2 no porta-bagagem! Ontem foi diferente mas mau como de costume! Mal deixamos Cuzco começou a chover, e a chuva foi aumentando de intensidade até se transformar em granizo. Havia relâmpagos e trovoada - as tempestades aqui sao em ponto grande e assustadoras! As janelas iam fechadas, o pára-brisas começou a embaciar e nao se via nada, e o condutor? Ia a 120, conduzindo com uma mao enquanto com a outra limpava o vidro, de vez em quando brincava com a filha que ia à frente com a mae e respondia a chamadas no celular! Ao fim de 20 minutos de stress tive de pedir-lhe que abrandasse ou eu saía do carro e nao pagava!
Uma espécie animal que abunda por aqui sao brecheiros! Brecheiros sao Peruanos que se agarram a "gringas" (estrangeiras) e vivem como parasitas até encontrarem outra ou até ela abrir os olhos e lhes dar um pontapé! Infelizmente deuses Incas ainda nao encontrei nenhum! 

domingo, 7 de outubro de 2012

La Cruz

Hoje subi à La Cruz com a Signe, a minha "irma" Dinamarquesa. Ela vive comigo com a mesma família.
La Cruz é, como é óbvio, uma cruz no topo de uma montanha. De lá tem-se uma vista fantástica de Urubamba e grande parte do Vale Sagrado.
Saímos de casa às 9.15 e caminhamos 1/2 hora até à base da montanha. O dia estava bom para a escalada, o sol encoberto e ao contrário do costume, a temperatura nao estava muito alta. Fizemos uma pausa para beber água e começamos a subir.
O carreiro é típico Inca, sobe a encosta da montanha aos zigzagues, tipo estrada da serra da Leba. Ao princípio, foi fácil: o carreiro era larguinho, nao muito íngreme, o piso firme, a inclinaçao da encosta da montanha, gradual. Progredimos bem e ao fim de uns 10 minutos já tínhamos uma vista bonita do vale. Na montanha em frente avistamos uma capelinha amarela, engraçada, construída pelos Espanhóis - ninguém vai lá.
Vinte minutos depois de começarmos a subir, o piso começou a mudar: pedras soltas, que escorregam debaixo do pé e volta e meia, o carreiro quase desaparecia, pois quando há chuvadas há derrocadas e parte do carreiro abate sob o peso da lama com água que vem lá de cima. Além disso, apesar do sol continuar encoberto, aqui já fazia muito calor. Queria mais água, mas tinha que ter cuidado para que nao se me acabasse antes do fim da caminhada.
Quinze minutos mais tarde começamos a avistar o topo. O carreiro aqui tornou-se mais estreito, mais íngreme e com um precipício que ia do alto da montanha até à base em Urubamba, ao lado. Concentrei-me no piso e com o encorajamento da Signe, chegamos ao topo.
A vista era simplesmente fabulosa! Toda a cidade, o vale até perder de vista, parecia que estávamos no topo do mundo! Tiramos fotos claro, embora a luz nao permita mostrar-vos como o vale realmente é maravilhoso visto lá de cima!
Chegou a hora de descer. Gostaria de poder dizer-vos que realmente conquistei os meus medos e pânicos e me portei como uma autêntica heroína, mas nao posso mentir! Quando comecei a descer o carreiro e à minha frente só via o precipício, congelei apesar do calor! Oh, o pânico que me assaltou! Nao há nada que se compare! Só quem me conhece muito bem e ouviu a historia do carro pendurado pelas rodas de tras na serra da Chela a 2000m de altitude, pode ter uma pequenina ideia do que senti! Tive um momento muito negro! E embora me envergonhe de confessar, desci aquela primeira parte do precipício à "minha maneira", ou seja, sentada! Mas desci!
Passada essa parte mais difícil, o resto foi canja!
Quando cheguei a casa senti-me pela primeira vez, orgulhosa do meu "feito", especialmente quando a minha "mae" Peruana (que só tem mais 4 anos que eu!) me disse: "Subiste à La Cruz? Esse caminho já nao é para a nossa idade!" Pois, mas eu subi! E melhor ainda, tambem desci!